Enfim…
Mais do mesmo…
Revoltante!
Revoltado! Irado! De vez em quando algo ou alguém consegue ter algum efeito em
que as mais simples e inocentes palavras se tornam facas afiadas que nos
golpeiam lentamente ao ponto de se ouvir a pele ser atravessada por elas.
Todos
nós já sonhámos em ter superpoderes, a nossa inocência infantil permite-nos
isso, todos nós já sonhámos acordados em salvar o mundo, salvar um familiar de
uma tragédia, salvar aquela pessoa de
uma situação em que a fizesse pensar que somos a pessoa mais importante do
mundo para esse alguém… Eu já sonhei
isso! Já sonhei isso tudo! Neste momento seria o vilão! Levado pelo impulso de
actos irrefletidos consequentes de palavras inocentes que abrem Caixas de Pandora
mentais… Reactivam e reabrem fendas levemente fechadas como se fossem rachas de
uma parede corrigidas com fita-cola. Relembram o passado que fragilmente ficou
para trás, sem ter sido devidamente tratado, corrigido. Esse passado que nos
rasgou a autoestima de uma forma quase incorrigível, que a levou aos mais
profundos níveis de existência… ao nulo!
Passas
anos a tentar corrigir isso, a tentar pisar isso de forma a que desapareça, a
falar sobre tudo como nunca o fizeste antes pois queres erguer-te! Apercebes-te
que tens que fazer as coisas de forma diferente, senão nunca vão mudar… Pegas
na tua humildade, seriedade, em todas as tuas boas características que te
definem como uma pessoa de bem, acima de tudo uma pessoa de respeito, mas… De
repente… Isso não conta! Que surpresa! Tens princípios que quase que
contam para alguma coisa, tens respeito que quase que conta para alguma
coisa, tens humildade que quase que conta para alguma coisa, tens a tua
arma mais forte de todas… o teu humor! Ahhh o teu humor… Anos e anos
“investidos” em criar em ti uma personagem cómica de um filme triste. Aquele
que faz rir quando tudo está em baixo, aquele que levanta a moral do mais
triste e infeliz dia de alguém… “investidos” através da TV que era, em certa
altura da tua vida, a única coisa que te conseguia arrancar uma gargalhada genuína.
“só tu para me fazeres rir hoje”…
Ouves isso dia sim, dia não… Sentes-te satisfeito, feliz por saber que fizeste
a diferença num dia, numa fase, menos positiva de alguém de quem gostas. Essa é
a tua grande arma… O teu humor… que quase conta para alguma coisa… Mas
de repente apercebes-te que isso é coisa do passado! Isso tudo não te vai
servir de nada! És nulo por seres boa pessoa! É um defeito! Desde quando é que
ser-se boa pessoa, tratar bem as pessoas, ter bons princípios e seres
responsável… desde quando é que isso se tornou um defeito? Desde quando é que
para seres alguém para alguém, tens que “quebrar regras”?
Apercebes-te
que todo o teu esforço em erguer-te foi em vão! Ou pelo menos foi errada a
forma como o fizeste… Devias ter sido algo que nunca consideraste ser, ter
agido sem pensar, não ter pensado em consequências, passar por cima de quem
tivesses que passar e da forma que tivesses de passar para chegares onde querias,
mal tratar quem mereceu e quem não mereceu! Devias ter batido, esmurrado,
libertado toda a tua ira, seja através de palavras ofensivas medidas ou não
medidas, devias ter dito que amas “com uma mão” e ter dado um estalo com a
outra… literalmente um estalo… ser um vilão diário e não uma tentativa de super-herói,
algo que continuas a tentar ser, impedindo-te de te tornares um vilão… Só
quando te tornares o oposto do que és, conseguirás ter algo ou alguém… Aquele alguém… esse mesmo que só quer
viver a “emoção” de não saber o que o espera quando chega a casa, ou quando vai
na rua, ou quando está a ser genuíno… Que te quer ver a quebrar as regras pois
acha-te demasiado certo, demasiado “aborrecido”, demasiado “monótono”… Que
nunca está satisfeito com o que tem, se o que tem o trata bem… Esse alguém…
esse alguém que já teve o pior e ainda assim que voltar a tê-lo! Talvez porque
ache que desta vez vai ser diferente, pois o nome é diferente, porque a
aparência é diferente… talvez porque ache que desta vez é que vai ter sorte…
talvez porque sempre viveu o “aqui e agora” e não quer saber do amanhã… talvez
porque seja a pessoa mais burra à face da terra… Não sabes o porquê… Sabes
apenas que tentaste ser alguém que fosse o modelo em pessoa. E a revolta, a
ira, a raiva… tudo isso vai chegando aos poucos e poucos à medida que
atravessas uma situação dessas atrás da outra. E quando pensas que não passarás
mais por isso… Ouves as “palavras mágicas”… as palavras que abrem a fechadura
da Caixa em que guardaste tudo de negativo…. As palavras que, quando crescias
como pessoa, nunca pensaste que fosses ouvir, como se tivesses numa entrevista
de emprego e te dissessem que és demasiado qualificado quando na verdade só
queres uma hipótese de mostrares o que és, o que vales… Quando dás por ti, após
anos e anos em que caminhaste num deserto de oportunidades, estás sem força…
Desistes… Vais para baixo como uma pedra num oceano. Voltas à escuridão, ao
gelo… Mas pior que isso tudo, perdes a capacidade de sentir! Tens uns rasgos de
luz momentâneos que rapidamente se desvanecem absorvidos pelo “Buraco Negro” da
inocência de umas simples palavras… Eis a tua fragilidade totalmente exposta.
Nunca foste forte, quanto mais super-herói… Apenas fica a raiva, a revolta… A
resignação… O pior de tudo! A resignação em saber que não podes fazer nada para
isso mudar. A resignação quando te apercebes que o “feliz para sempre” é um
mito criado pela Disney. A resignação quando percebes que não consegues mudar
esse alguém, porque esse alguém é alimentado pela instabilidade, pela incerteza
e pelo sofrimento, algo que tu nunca serias capaz de proporcionar, algo que te
incomoda, algo que lutas para teres a certeza que essa pessoa nunca passaria
contigo! E de repente pensas: “sou aborrecido”! E sim, és aborrecido! És
exactamente o oposto do que essa pessoa quer! Já tinhas que ter demonstrado que
não o és, mas não foste capaz… Porque és aborrecido… És neutro… És o pior que
podia entrar na vida de uma pessoa que quer ser desrespeitada, traída,
abandonada por vícios, mal tratada, mas que ao menos tem emoção na vida! Essa
pessoa não quer estabilizar… Essa pessoa não quer pensar no futuro… O futuro
não é um problema, não é um objectivo… O futuro não é nada! Essa pessoa vive do
presente, esquecendo-se que tem mais dois terços da vida ainda por viver! Essa
pessoa, que tanto se encaixaria num perfil de par perfeito, não é nada mais do
que uma ilusão… O tal rasgo de luz momentâneo… Aquele que foi imediatamente
coberto pela “nuvens” da realidade… Nuvens essas que soletram hipocrisia com todas as letras! A
revolta… a revolta ao te aperceberes que tudo o que foi dito foi em vão. Todas
as conversas não foram mais do que passatempos irreais! Passatempos irreais que
levaste como uma competição a sério, e te apercebes mais tarde, que nunca
sequer estiveste em jogo! Foste aquele elemento que sobrou depois de escolhidas
as equipas. E voltas para casa desiludido contigo mesmo, desiludido por
pensares que serias escolhido, e que, apesar de teres todas a características
necessárias para seres a primeira escolha, nem sequer te deixaram jogar.
Desiludido contigo mesmo por achares que serias levado a serio, que te teriam
respeito, consideração… Desiludido contigo mesmo por teres olhado para alguém
em que acreditaste que poderia mudar, crescer… E nesse momento, ao mesmo tempo,
uma das tuas melhores qualidades reaparece: o teu rancor!
O
rancor é subestimado! É uma qualidade, não um defeito! O rancor está
directamente ligado ao sentimento que tiveste por essa pessoa, significa que
foi verdadeiro, independentemente do tipo de sentimento que havias tido. A ti o
rancor faz-te maravilhas, faz-te não olhar para trás! Faz-te querer andar para
a frente e esquecer essa pessoa. Obriga-te a nunca mais na tua vida olhares
para essa pessoa como opção, como esse alguém.
Transforma a marca positiva que essa pessoa tinha na tua vida em marca negativa
e faz-te esperar que essa pessoa se venha a arrepender da escolha que fez.
Transforma-te em algo que queres ser, um vilão, ainda que um vilão passivo. E
tu irás ficar satisfeito por essa pessoa passar mal, irás ficar satisfeito por
essa pessoa ter feito más escolhas, irás sorrir por dentro enquanto essa pessoa
chora por fora, irás dormir descansado enquanto essa pessoa é mal tratada, irás
seguir em frente e deixar essa pessoa para trás. Não foi nada mais do que uma
dificuldade que tiveste de ultrapassar. Irás saber que essa pessoa, da qual
agora não sentes nada, foi apenas mais uma como outras tantas. Foi alguém sem
sal que passou na tua vida. Foi alguém que tinha muita teoria e pouca prática.
Falava como se soubesse o que queria, mas nunca o aplicou, ou nunca soube o que
queria na realidade. E a ira que ainda sentes pela situação que estás a passar
neste momento, transformar-se-á em desprezo por alguém que te considerou
segunda opção, ou nunca sequer te considerou de todo. E no entanto, ao seguires
em frente, não vives… sobrevives! Vais sobrevivendo a cada uma dessas, agora,
insignificantes pessoas que passaram na tua vida. Ainda que agora sejam insignificantes imaginas como
seria a tua vida se essas pessoas, ou em particular, aquela pessoa tivesse tomado a decisão correcta. Talvez não fosse
muito diferente do que é agora, talvez fosse muito melhor, talvez tivesses
agora de rastos… Não sabes… O que sabes e o que te revolta é falta de
reconhecimento do que és e podes vir a ser. Aliás, o que podias vir a ser…
Esqueces-te que a vida é uma estrada de sentido único em que alguém, que não
tu, decidiu voltar para trás pelo caminho que já tinha passado. Vai em
contra-mão… E tu deixas ir! Sabes que o acidente é iminente para essa pessoa
mas já nem te preocupas. Reaparece a tua vilania e o teu rancor ao te rires
desse acidente, mas ao mesmo tempo sabes que a culpa não é tua porque sempre
estiveste disponível para o evitar. Mas já não o estás… E não o estás porque a
distância entre ambos já é enorme, proporcionada pelo facto de terem seguido em
sentidos opostos, tu para a frente e esse alguém para trás. Esse alguém não se
apercebeu que vai apanhar a estrada pela qual já passou. Vai ter os mesmos
buracos que tinha, vai estar mal sinalizada como estava, vai ter as mesmas
distrações e perigos que tinha, mas no entanto, como foi pintada uma linha
nova, aparenta ser uma estrada diferente… Aparenta! É uma questão de
tempo até pisar o mesmo buraco que havia pisado antes…
E
que conclusões tiras disto tudo!? Nenhuma!? Foste tu que agiste mal!? Nahhhh….
Chegas à conclusão que a tua atracção é por pessoas com o “Sindrome de
Peter-Pan”! Pessoas que não querem crescer! Pessoas que acham que vão poder ter
a vida que tinham aos 20 anos para sempre! Que vão, ou querem, ser crianças
para sempre e não querem assumir que já têm a pele gasta, que já passaram um
bom bocado e está na altura de ser adulto. Pessoas que falam em sonhos que têm,
impossíveis de realizar enquanto mantiverem um estilo de vida incompatível como
o têm tido até agora. As tais nuvens a soletrar “hipocrisia”… Aquela hipocrisia
que as levaram a confessar-te esses mesmos sonhos como se fossem objectivos por
alcançar…
Espera…
volta atrás… Que conclusões tiras disto tudo!?
Que
a tua revolta, a tua ira, o rancor e a vilania te acompanharão para o resto da
tua vida porque, no fundo, o defeito em acreditares, e continuares a acreditar
insistentemente nas pessoas ou naquela
pessoa, é teu!
E
no entanto cais… levantas-te… Segues o teu caminho e lembras-te:
“O
teu valor não diminui pela incapacidade de alguém o reconhecer…”
Persona non grata...